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Canceriana. Que faz artes com o corpo. Portoalegrense de nascimento, brasiliense de coração. Ou seja, dividida entre dois amores...

terça-feira, 23 de agosto de 2016

A mesa

Ela caminhava a passos largos. Não tinha pressa para chegar. Estava adiantada. Nada começa na hora, não? À medida que se aproximava do lugar, uma onda invadia o seu corpo. Um frio na barriga.
Chegou à frente do espaço. Um cartaz lhe lembrava de que estava no lugar certo. Olhou no relógio: pontualidade britânica. Mas não era bom chegar tão cedo, pensou... Antes de subir as escadas, quis fazer uma oração. Aqui? Queria que tudo corresse em paz... Não a fez.
Subiu as escadas com passos firmes. Quantas vezes nos últimos meses havia subido aquela escada? Sempre de mãos dadas a ele. Ia subindo e cumprimentando um monte de gente desconhecida. Agora era diferente. A escada estava vazia. E ele não estava ao seu lado. Foi percorrendo o espaço até cumprimentar o moço da recepção. Ninguém até ali.
O frio na barriga aumentou. Seria só ela? Ela e ele? Estava ali como um gesto de afeto. Como esteve, dias antes, em seu aniversário. Seria só um carinho mesmo? Ou no fundo havia a esperança do reencontro?
Quando se separaram, ele lhe dissera que não tinha tempo para estar com outra pessoa. Tempo, quem precisa de tempo para amar? Ela não acreditou. Pensou que o motivo fosse outro e que poderia ser contornado. Os dias se passaram, e ele lhe fazia falta. Falavam-se quase todos os dias e noites. Para ele contava-lhe como havia sido o dia, o que fizera, etc. E, de repente, não havia mais com quem compartilhar. Rompeu o silêncio, ligando-lhe no dia do seu aniversário. E ele a convidou para a festa. Naquela noite, ficaram em um estranhamento inicial, depois falaram de suas vidas como faziam antigamente.  Mas agora como amigos. Amigos? Não, não estava preparada para ser sua amiga. Foi ali fazer-lhe um carinho, afinal, era seu aniversário. Mas, no fundo, desejava mais.
Entrou no salão e antes de vê-lo, viu a moça desconhecida. As pernas ficaram bambas. A boca secou. Caminhou na direção deles, cumprimentou a moça e depois ele. Disse-lhe que veio dar uma passadinha, pois tinha outro compromisso depois. Puxou um breve papo com a moça e sentou-se.

Escolheu uma mesa em que pudesse olhar o palco. Escolheu a mesa que sempre sentavam. Mas agora ela estava só. E ele, lá no palco. Nos últimos meses falaram tanto daquele dia. Ela queria estar ali com ele. Queria prestigiar aquele momento. Mas queria ser a moça desconhecida. Queria ser ela, com ele, no dia do show. Afinal, não era o show que lhe tirava o tempo?
A moça veio sentar-se com ela. Na mesa deles! Seria mesa desse novo eles, agora? Ela gelou. À medida que o papo avançava, sabia cada vez mais quem era ela. Sim, faltava-lhe tempo para estar com duas ao mesmo tempo.
Quis perguntar-lhe se ele já havia lhe dado o livro com os poemas que agora apresentava no show. Quis dizer-lhe que ele a levaria ali várias vezes, pois gostava daquele lugar. Quis dizer que ele lhe daria coisas... Quis dizer-lhe que estava com ele, até ela chegar. Quis mostrar-lhe quem era. Não disse nada.
O show começara. E o que parecia bom, agora lhe era uma tortura. Olhava o celular. Havia marcado de se encontrar ali, com outra pessoa, e de lá ir para o outro compromisso. O tempo, aquele ser que lhe maltratara, era impiedoso: não passava. Pediu, então, uma comida. Quem sabe, ocupada, fosse melhor. Olhava para ele, prestando atenção na musicalidade imposta às letras que ela conhecia. Algumas ela gostava, de fato. Lembrava-se das histórias contadas nestas letras. De canto de olho, percebia a outra. Ela olhava-o atenta. Eram as duas, apaixonadas, a lhe admirar. Nada melhor, para alguém que está no palco.
Um filme lhe passava pela cabeça. E ela engolia em seco as lágrimas que queriam sair. A comida e a companhia chegaram quase ao mesmo tempo. Apresentou a moça. Quis dizer: esta é a nova paixão dele. Não disse. Fez de conta que tudo era normal. Não era. Percebeu que em alguns momentos a moça lhe dava um sorriso. No fundo, ela sabia quem era ela. Mas agiram como se não soubessem.
Comeu devoradamente. Tinha pressa em ir embora. Não que estivesse na hora. Já havia lhe passado o tempo de correr dali. Antes de ir, passou pelo banheiro. Olhou-se no espelho: mas que ridícula! As lágrimas teimavam em querer sair. E ela engolia o choro. Por que fora se apaixonar por ele? São tão diferentes, quase que como água e vinho. A moça, sim, deve ser mais adequada, pensou. Ah, no fundo, isso era dor de cotovelo!
Voltou ao salão, se despediu dela, acenou a ele e se foi. Desceu as escadas muda. Seguiu seu caminho até lembrar-se que havia deixado as luvas. Pensou: volto? Estava frio, ia precisar das luvas... Voltou.
Quando ela entrou no salão, ele terminava uma canção. Pegou as luvas. Ficou pensando: eu não ouvi aquela que mais gostava, a que diz: vais sair sem me dar um beijo? Sim, as despedidas às vezes são sem beijo...
Ele, do palco, lhe agradeceu a presença. Deu vontade de lhe dizer: obrigada pelo constrangimento. Mas não havia culpa. Ela tinha ido ao encontro dele. Ela tinha ido fazer-lhe um carinho. Para que, se ele não pediu? Verdade que a convidou para o show...
Saiu dali de novo, com os passos firmes, na certeza de que nunca mais. Não havia mais motivo para lhe dar carinho. O tempo estava estampado naquela mesa. Engoliu o choro mais uma vez e caminhou sem dizer nada. Lá pelas tantas, puxou um assunto qualquer, precisava falar para não chorar. E falava, falava, falava... Porque enquanto estivesse ocupada falando, não haveria lágrima para escorrer no seu rosto. Foi então para o compromisso principal.
Queria contar à outra o que tinha se passado. Talvez ela já soubesse. Seu rosto devia estampar. Mas sabia que se contasse, as lágrimas iam correr pelo seu rosto. Aquelas mesmas lágrimas que ela havia segurado até então. As mesmas lágrimas que ela segurou no dia em que ouviu o que não gostaria de ter ouvido. Aquelas lágrimas que, naquele dia, escorreram vultuosamente no caminho para casa. E que mais uma vez eram represadas.
O outro compromisso também era um show. E ela contava os minutos para que ele começasse. Assim não tinha tempo de pensar naquela mesa. E quando o show começou, por diversas vezes, as lágrimas começaram a descer pelo seu rosto, uma a uma, mas ela segurava. E segurou até o fim. E quando o show acabou, tudo o que ela queria era o seu travesseiro, para nele deixar as lágrimas escorrerem. O tempo, sim, o tempo lhe sobrou naquela noite. O tempo não passava e as lágrimas no travesseiro escorreram por muito tempo. E tempo não passava. Sobrou-lhe tempo. E o dia amanheceu.  

sábado, 6 de agosto de 2016

O adjetivo

As palavras saíram de sua boca com todos os adjetivos possíveis: os pensados, os não pensados, os não desejados. O silêncio do outro lado fez com que as palavras borbulhassem em sua boca. Durante algum tempo ficou escolhendo-as e, naquele momento, ruminava aquele silêncio e devolvia-lhe com uma explosão. As palavras saiam de sua boca como fogo. Fogo que outrora queimou o seu corpo.
As palavras explosivas quebraram o silêncio. E do outro lado vieram as palavras esperadas, mas não desejadas. Ela sabia o que aquele silêncio podia significar. Sabia que dele podia vir o que não queria. Mas também sabia que precisava quebrá-lo. Sim, as palavras não ditas, que lhe corroeram, agora saiam da sua boca. E diziam-lhe o inevitável.
As palavras do silêncio quebrado doeram-lhe. O silêncio estendido por dias espalhava-lhe uma onda de raiva. Engoliu o choro. Deixou escapar outras palavras, que ecoavam no ar, na intensidade do fogo que um dia lhe consumiu. Ecoavam trêmulas, denunciando o choro engolido. Calou-se.
A raiva que explodia em seu corpo e nas palavras que deixara ecoar, fez seus dentes rangerem e entre eles saírem a derradeira frase. Sem olho no olho. Saiu a passos firmes, quando por dentro cambaleava. Era uma fortaleza que escondia a fragilidade. O corpo explodia em raiva pelo silêncio por tanto tempo contido. Energia contida que se refletiria depois em dor física, para além da dor na alma.
O choro foi engolido. A lágrima contida. Menos a raiva. Ela explodia em um adjetivo que ecoava no ar. Adjetivo que outrora teve conotação positiva...
Seguiu o seu caminho. O corpo doía-lhe. Não havia mais explosão. Só dor. Então, chegou à padaria e ouviu da moça, que nunca a vira, o adjetivo que lhe resumia naquela hora. De que adiantou conter o choro e a lágrima, se eles estavam estampados em seu rosto? O adjetivo lhe soou como uma senha, para deixar o sentimento escorrer. Engoliu o choro, mas o pedido do pão saiu com a voz trêmula, denunciando-a. Os olhos encheram-se de água. A moça lhe perguntou se queria mais alguma coisa. Mais nada, era a resposta, que custou a sair de sua boca. Queria tanta coisa!
O caminho até o caixa foi torturante. Todo o sentimento contido agora lhe escapava... Ia engolindo o choro, segurando a lágrima que teimava em escorrer. Aquele adjetivo era passageiro. Mas lhe doeu. 

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Esperando Godot II

Outro dia li a postagem de um amigo ou amiga, não lembro, que trazia um texto de Chico Xavier. Dizia ele que o amor não esperava nada em troca. Fiquei pensando: será?
Tá bom, talvez eu não fale do AMOR, mas dos AFETOS...
Não esperamos mesmo nada em troca, nós, humanos? Fiquei pensando, naquele dia: entre as amizades não, mas em outras relações de afeto, sim.
Hoje voltei a pensar nisso. Será mesmo? Será que não esperamos nada mesmo, nem das amizades sinceras? Das AMIZADES assim, com letras maiúsculas? Será que quando precisamos, não esperamos que o(a) amigo(a) dê o colo, o conselho?Será que não esperamos das amizades fidelidade, lealdade? Talvez não demos pensando na recompensa, mas acho que quando precisamos, esperamos sim.E nos decepcionamos quando não recebemos.
E o que dizer, então, dos outros relacionamentos afetivos? Não esperamos nada, mesmo, dos nossos pais? E dos(as) companheiros(as)? Não é natural estarmos com dor muscular e esperarmos que o(a) companheiro(a) faça uma massagem? Querer que ele(a) ouça o problema do trabalho ou compartilhar com ele(a) a alegria? Querer receber dele(a) colo?
Não sei se naquele texto ou em outro, falava algo que quando damos sem esperar, recebemos. É verdade que às vezes recebemos sem esperar nada... Mas será que sempre que damos sem esperar, recebemos? Ou será que alguma vez damos sem esperar? Não falo em caridade, em coisas materiais, etc. Falo dos AFETOS com aqueles(as) com os(as) quais nos relacionamos.
Às vezes tenho a sensação de quem muito dá sem receber se esvazia. Talvez porque, como humanos, no fundo, estamos sempre esperando. Mas que nossas esperas nem sempre se concretizam porque, afinal, somos humanos e somos diferentes. O máximo da intensidade de uma pessoa pode ser considerado o mínimo para outra. O amor não se mede... Mas provavelmente aquele(a) cuja intensidade seja maior, ou que tenha a sensação de que é maior, fique frustrado(a).
No fundo, nas relações, tenho a sensação de que sempre estamos Esperando Godot, como na peça de Beckett.
. Não há uma equalização entre as expectativas. Talvez, no fundo, sempre damos esperando a recompensa. O beijo de bom dia, o abraço na hora certa, o obrigada, o sorriso, o secar as lágrimas, etc. E esperamos Godot exatamente por não equalizarmos as expectativas. Ou porque damos esperando a troca, não sei.


Ver também: Esperando Godot.